De vento em vento
Nesse dia-ventania, ah,
vôo no vento,
vou no tempo,
senhora de mim
e cheia de dar ordens,
*Photo: Marta Ferreira da Carochinha
Deu-se a si em bandeja de prata
e se mais não pôde
foi por não lhe quererem
(por ela, já o teria feito)
E não foi a paga esperada, a que recebeu.
Desistiu de tudo, das tardes de domingo na sogra
ao Amor, filhos, curso de pilates e ikebana.
Quis desistir, pular do mundo
(o abismo de fora, parecendo menos profundo)
De idéia em punho, espera a deixa (coragem?),
Eis,
vem o destino interromper-lhe a viagem.
Enquanto lança o último afago ao cachorro,
olha a ponte à sua espera, que quase sorri.
A galope em cima dela, um andante.
Sujo, roto, mas ah, nos olhos
nos olhos mil estórias cantantes.
Estende uma rosa, carmim,
que levemente ajeita em seu cabelo,
(tendo sentido talvez, do toque, o apelo)
“- Levanta o queixo menina, que a vida é muita
e se a aurora’inda vai alta, é porque é cedo.”
E é assim, na mais piegas situação,
que ela flor, de flor no cabelo
atira da ponte só a dureza e a mágoa
do alto de sua mais sábia decisão
e nesse gesto faz sua escolha:
permuta o frio do obituário
pelo verde olor do orquidário
onde vai todas as tardes passear.
Flor em seu devido lugar
belo dia desses
alguém há de se encantar por sua beleza
e se ela der sorte, refeita,
há de ver a beleza mesma nestes outros olhos.
Já não chora,
(no máximo rosna; ou ronrona)
Vida, às vezes é fardo
outras é encanto.
Viver amor é arriscar muito, tudo, e tanto.
Suicidar-se? A idéia certeira de outrora
por baixo da ponte, de longe
vislumbra a flor com espanto.
*Photo: Nuno Belo
*Photo: Tuta
Medicina alternativa
Da janela me espreitam
esses fantasmas famintos
Essa dor aguda no peito
pode ser ausência afiada
pode ser mal de Chagas
hipocondrice à meia-noite
crise de solidão mal curada.
Sei que dói,
dor sem nome
sem saber direito onde
sem prever ao certo quanto
sem fazer alarde, sem vestigiar.
Mas existe e excede. Presente como ar,
elefante branco no meio da sala.
Fecho a janela.
Ainda dói.
Amanhã, com coração descansado
(de alguma forma
que ainda não sei como,
refeito e desdoído)
esperarei que nasçam em meu quintal
girassóis alucinógenos medicinais
contra essa dor de não-sei-porquê.
*Photo: Andre Baranowski

*Photo: David Chapman

